Açúcar: Em 8 meses, 10 milhões de t a mais! - Por Arnaldo Luiz Corrêa

"Para todo problema complexo, existe sempre uma solução simples, elegante e completamente errada" - Henry Louis Mencken (1880-1956), escritor, crítico e jornalista americano

O mercado de açúcar em NY encerrou a sexta-feira cotado a 14.43 centavos de dólar por libra-peso no vencimento março de 2021, um ponto apenas abaixo do encerramento da semana anterior. O mercado tem se comportado como um ioiô, tentando com a ajuda dos fundos especulativos - sem sucesso - sobreviver acima dos 15 centavos de dólar por libra-peso, mas encontrando forte resistência por parte dos fundamentalistas.

O Brasil continua inundando de açúcar o mercado internacional. No mês de novembro embarcou quase 3.1 milhões de toneladas colocando o acumulado de doze meses (dezembro/19-novembro/20) em 29.46 milhões de toneladas, o maior nível desde setembro de 2017. Nesta safra, o total acumulado é de 23.68 milhões de toneladas (abril-novembro), 10 milhões de toneladas de açúcar a mais do que o mesmo período anterior, que foi de 13.2 milhões de toneladas. Isso não é uma inundação, é um tsunami de açúcar. O País tem substituído as ausências de Tailândia e outros produtores com larga margem.

Os fundos, no entanto, continuam segurando uma posição comprada de 212.680 lotes, pelos números divulgados na sexta-feira pelo CFTC (Commodity Futures Trading Commission), agência independente do governo dos Estados Unidos, que regula os mercados de futuros e opções das commodities, com base na posição da terça anterior.

Ainda tem muito chão até o vencimento do contrato março, mas acredito que a partir de meados de janeiro os fundos terão que começar a pensar na rolagem dessa imensa posição para o vencimento seguinte, que é maio/21 ou, alternativamente, liquidá-la. Estou aqui me perguntando quem poderia ser o comprador dessa posição a ser rolada e/ou liquidada. Para os fundos, a reversão satisfatória dessa posição comprada terá que contar com uma forte mudança nos fundamentos do açúcar.

O subsídio indiano está em vias de ser aprovado entre 6,000 e 7,000 rúpias por tonelada (cerca de US$ 100), ligeiramente inferior às 7,800 rúpias que estimamos aqui há um mês. Com isso, assumindo que o preço mínimo naquele país continue em 31,000 rúpias por tonelada (US$ 420) que ? convenhamos - dada a situação de extrema crise fiscal na Índia, é um desafio, o ponto de equilíbrio para a exportação passa a ser de 15 centavos de dólar por libra-peso. Citando Churchill, um leitor comentou na semana passada que a política de açúcar da Índia é "um enigma, envolto em um mistério, dentro de um enigma". Vamos ver se teremos esse assunto superado/resolvido no início da próxima semana.

O real, assim como a maioria das moedas dos países emergentes, continua se valorizando em relação ao dólar e fechou a semana cotado a R$ 5,0632 ganhando 1.25% em relação à sexta-feira passada. Com isso, claro, as cotações de açúcar convertidas em reais por tonelada também experimentaram uma redução que variou de R$ 28 por tonelada no contrato maio/21 e R$ 16 para o período correspondente à safra 22/23.

É interessante notar que o contrato de petróleo WTI convertido em reais está muito próximo do nível pré pandemia, o que abre a possibilidade de ? no evento de uma recuperação do consumo no primeiro trimestre de 2021 provocada pela introdução da vacina ? um aumento no preço da gasolina na refinaria. A Petrobras deve ter uma folga de aproximadamente 8% neste momento. Existe, portanto, no nosso ver, razoável chance de os preços do etanol ficarem acima da média no primeiro trimestre do próximo ano e a paridade (que hoje mostra um desconto de 200 pontos em relação ao açúcar) estreitar.

As exportações do setor (açúcar e etanol) nos últimos doze meses alcançam US$ 9.52 bilhões, o maior valor desde junho de 2018. O recorde, no entanto, é em junho de 2013 quando o montante exportado pelo setor chegou a US$ 16.46 bilhões.

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Sérgio Porto era um jornalista, escritor, radialista e humorista carioca, ex-funcionário do Banco do Brasil, que usava o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Era um gozador de primeiríssima linha e escrevia deliciosas crônicas irônicas, críticas cáusticas e piadas reais nos jornais cariocas nos idos dos anos 1960. Entre suas publicações de sucesso na época está o FEBEAPÁ ? "Festival de Besteiras que Assola o País" em que relatava com seu fino humor as bobagens perpetradas pelo regime militar de então. Não tivesse morrido de enfarte fulminante aos 45 anos em 1968, Porto certamente teria sido enjaulado pela ditadura militar pelos achincalhes que distribuía à mesma. Hoje, com a quantidade de palermices emanadas do Planalto e os militares desavergonhados que batem continência para nosso capitão de araque, Stanislaw Ponte Preta certamente seria, como antes, um best seller (Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting - Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.)
Fonte: BrasilAgro